Complexo de Facebook I

Prezado Mark Zuckerberg

Para começar gostaria de abreviar seu nome. No Brasil é muito complicado escreve-lo. Então te chamarei de Zé (Zé no Brasil é um cara legal, tipo brother). Então: prezado Zé, gostaria de aproveitar que você mudou o facebook sem consultar os membros e sugerir algumas outras mudanças. Eu diria inclusive que são praticamente bugs. E assim sendo também já reivindico meu pagamento por descobri-los.

Zé, a coisa tá feia pro nosso, digo, seu lado. Como psicanalista andei analisando seriamente sua, digo, nossa rede social. As pessoas estão sofrendo do que nominei: Complexo de Facebook I. Acho que é uma mistura de histeria coletiva com depressão anaclítica. Nada de Édipo ou Mãe. Existe ainda algo fálico, ou melhor: são pulsões constantemente recalcadas que terminam em traumas inconscientes e demandas jamais imaginadas. Casos graves nunca antes precitados. Zé, você esta derrubando o principio do determinismo. Antes que eu esqueça: Obrigada. Você é responsável pelo menos por boa parte da minha agenda lotada.

Entretanto os facebookianos estão ficando cada vez mais “watizapados” pela solidão à eles delegada. É muito “objeto”, muitos “outros” e nenhum self. Este ultimo teve o infausto de virar nome de foto, pobre Jung. Não existe mais o id, apenas o superego que ocasionalmente afeta algum ego narcisista. Destarte os pacientes chegam desesperados ao meu consultório: Dra, desde que entrei no facebook tenho a sensação de estar sendo seguido! E está mesmo! Não desativou a bendita ferramenta “Seguir”?

Como não bastasse, existem as indiretas. Vamos falar sobre elas: Zé se você tem 200 amigos e manda uma indireta para apenas 1; 79 vão achar que foi para eles, 112 vão gostar e compartilhar e apenas 8 irão entender para quem realmente foi. Tem noção do quão irritante é ver na sua TL um dos seus centenas de amigos mandar uma indireta para outra pessoa que você nem imagina quem é e não satisfeitos os amigos em comum vão compartilhar e por fim, apenas um (você, no caso eu) fica se perguntando: mas pra quem foi essa p*? Não se aperreia Zé, já pensei na solução para isso: tira algumas propagandas que sujam nossa TL e coloca um espaço para INDIRETAS. Sabe como é? tipo como as propagandas que aparecem ao lado da pesquisa no google? Iria ser fantástico! Lá estariam as pessoas com hashtags #indiretas. Logo, seria um espaço para quem quer compartilhar indiretas e claro: receberem as indiretas. (mandei bem nessa)

Se o problema fosse só esse tava bom, Zé. Existem os desabafos. Ah… eu estou cuspindo no prato que comi e lambi. Ainda bem que tudo passa, tudo muda (inclusive a aparência do facebook). Tenho sorte de não precisar mais usar o face para desabafar e promover barracos (esta parte de barracos é muito importante. vejamos mais para frente). A questão é parecida com as indiretas: você lê um desabafo e não tem a menor ideia do que se passa! pior: imagina e já vai colocando nome nos conhecidos bois. Vamos fazer um “botão” desabafo? Dessa forma evitaríamos muitos barracos (é ele mesmo. o tal barraco que mencionei antes). Família não pode visualizar desabafos. Para isso existem os amigos. Destarte o barraco fica para os conhecidos. Presta atenção Zé: família não pode ver desabafo. não mesmo! alias, nem ex. Que ex? Oras, todos os ex. pula esta parte que falarei dos ex depois.

Bem, voltemos ao barraco. Não sei qual palavra serve no inglês para traduzir “barraco”. Contudo é de suma importância que tome medidas drásticas para o tal. Cara, não existe nada pior do que alguém que não foi chamado, muito menos foi feito o uso do ponto de interrogação no final de algo que comentamos em nosso face e vai lá dar opinião. Ô coisa, pessoa chata! Sem ter o que fazer. Quase igual ao que eu to fazendo contigo. E a justificativa é sempre a mesma: é publico! nhé, nhé, nhé… Só que não como dizem! Meu face não é público. É meu. Unicamente meu. Tanto que se eu cometer algum crime virtual, quem vai ser responsabilizado? EU! e por que cargas d’água o infeliz não usa o espaço #indiretas para me dar uma resposta ou descordar de mim? Não! o desocupado vai lá e comenta abaixo do que euzinha publiquei! é mole? it’s hard!

Isso me deu mais uma ideia: Grupos! Ao invés de apenas curtir paginas, haveriam grupos para: futebol, sexo e religião. Assim o cidadão paciente poderá falar sem medo de ser feliz: torço pro Brasil perder a Copa! Gosto de “dar” uma rapidinha com a(o) ex! Sou ateu e acho religião coisa de babaca! Nossa, até me emocionei pensando quão lindo ia ser o facebook. Nada de ficar debochando do time alheio, nada de meter Deus em tudo, nada de hipocrisia sexual (tipo o homem que é todo certinho mas trai a torto e a direito ou a mulher que fica indignada com posts de cunho lascivo e constrange o namorado, marido, parceiro…)

Falando nisso, tem o(a) tal de “ex”. Vou usar o masculino por ser mais genérico (e por ser mulher, claro). Zé a coisa fica tensa quando o assunto é ex. Pela mãe do internauta! Bloquear, excluir e depois fuçar com outro face é tão certo quanto a libido! Nossinhora dos psicanalistas! Situação chata e revoltante essa é. Você também deve fazer isso né Zé? Afinal, tu é homem (pelo menos diz ser). E é discurso anfêmero no consultório. Pior que isso só quem está comprometido (de qualquer forma, rotulo ou titulo) e não deixa se quer os amigos saberem. Péra, tem algo mais pior de tudo: a mulher não colocar para “geral” saber que o dito cujo é comprometido. Zé, você tem que dar um jeito nisso. Tem noção que sua rede social é um antro de traição e destruição de relacionamentos? Entendo que cabe a cada traidor ou corna cuidar do seu… sei lá que nome dar a tantos tipos de relacionamentos, mas poxa… se não houvessem facebook ou fakes não haveriam tantas brigas ou machucados. Porque machuca, entende? Não vou me estender sobre isso por causa de pacientes que se encontram em qualquer um dos lados supracitados.

Haja vista que seus problemas são maiores que os meus, aceito simplesmente o pagamento por descobrir tantos bugs e quem sabe voce promove a pagina do meu site. Porém seja cauteloso com sua resposta: ela pode vir a ser uma #indireta, imitada em um desabafo ou gerar um barraco. E ainda não criaram o botão para isso!

Atenciosamente
Vivian Fernanda Guimarães Martins
Psicanalista (e facebookiana nas horas vagas)

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