Nem sempre mãe

MATERNIDADE-REAL
Tornar-se mãe mãe nem sempre é uma decisão da mulher. Engravidar, gerar e parir não são premissas que obrigam a mulher a ser mãe. Muitas passam por tudo isso e ao final continuam sem se sentir mães. O psíquico não respondeu ao biológico. A bela história em que: “ao ouvir o coraçãozinho do bebê pela primeira vez ou quando viu seu bebê na sala de parto e sentiu um amor inexplicável…” simplesmente não aconteceu com essas mulheres.
Algumas passam pela gestação inteira sem conseguir amar. A rejeição se mistura ao medo da mudança, a transformação do corpo, a perda da individualidade e soma-se ao fato de não ter desejado engravidar naquele momento. Isso tudo não poderia resultar em contos de fadas maternos, claro.
A rotina, os sonhos, as vontades enfim, tudo que viveu até aquele momento se transformam em revolta e medo, acreditem, a mulher tem mudo medo. De não ser boa mãe, de não dar conta sozinha, de outras pessoas não a deixarem ser mãe, de abandonar temporariamente seus planos e depois não conseguirem voltar de onde parou.
Dizem que quando nasce um filho, morre uma mulher. Mas isso é uma metáfora da fênix: ela morre para renascer como mãe. E mães são heroínas. Com direito a múltiplos super-poderes.
Naturalmente existe uma grande pressão do mundo para que o amor incondicional do bebê seja correspondido pela mãe. As pessoas só não contam com o fato da mulher não querer ser mãe, não se sentir mãe. E toda essa coerção social só a faz ter mais aversão à maternidade. Porque ela é um individuo, ela tem um ego, um Self, uma personalidade. Ela tem vontades próprias e não compartilhadas. Ela quer ganhar um batom e não um creme para evitar assaduras.
Eu já escutei muitas vezes no consultório: amo meu filho mas odeio ser mãe. Essa ambiguidade se mostra nos momentos em que a mulher tem que se anular e desaparece quando o filho esta em perigo. Pois mesmo relutando, o instinto de preservação da cria, está em todos os animais.
Estudando sobre o luto materno, li que uma mãe nunca se cura da dor de perder um filho. Diferente de perder o outro, perde um filho é perder um pedaço de si. Um filho é um projeto da mulher, uma investida narcisista de sua continuidade. Em um luto normal, consciente, o mundo se torna mais triste. No luto materno, melancólico, é a pessoa quem se torna triste , sem vontade de continuar neste mundo independente de como ele seja.
Entender que uma mesma mulher pode ser capaz de negar a vida de um filho e de dar sua própria vida por ele é essencial para aceitar o tempo que as vezes seja necessário para a aceitação da gravidez e do pós parto de uma mãe. Receber um bebê depois de gestar e ter resiliência para viver uma realidade totalmente diferente não é intrínseco para todas. E a ciência comprova isso através da depressão pós-parto.
A terapia ajuda muito na aceitação da maternidade, da nova vida que surge com a chegada de um filho (ou a perda), mas sempre enxergar a mulher que existe por trás de toda mãe é vital. Mulheres não podem ser obrigadas a serem mães, mas todas as mães são antes de qualquer outra coisa, mulheres.