Psicanalista: pensamento, sentimento e prática!

É fácil confundir um psicanalista com um amigo. Isso é fato. Não saber nada sobre seu analista é um ideal puritano e platônico. O psicanalista deve ter a aceitação carinhosa da variedade de vidas com todas as suas diferenças* . De certo a relação entre o terapeuta e paciente não deve ser impulsionada pela teoria, mas sim pelo relacionamento. Deve ter o psicanalista uma sensibilidade e coragem de se aproximar do paciente, sendo ainda maior quando trata-se de dores ou trauma ja que esta aproximação influencia profundamente a natureza do relacionamento e afeta individualmente cada sessão.**

É difícil explicar como pensa um psicanalista. Aqui uma pausa: imagine que o psicanalista e seu paciente estão viajando de carro. O paciente esta na direção e narra tudo que vê. Seu psicanalista deve enxergar pela janela do outro, de seu paciente e não o que passa pela sua janela. Temos que ver o mundo da forma que nosso paciente o vê. Não é fácil. Mas deve parecer! É incrível a quantidade de pacientes que ao se entender pensam em pedir alta (quando pedem ao invés de nem se despedirem) pois tudo é tão simples e claro. Que desperdício gastar meu dinheiro se eu mesmo posso fazer isso. Ok. Em nome de todos os livros que nunca deixamos de ler para cada paciente que nos dedicamos, peço ao paciente (ou futuros pacientes) que tentem “ver o mundo como o outro (seu psicanalista) vê.”

Para começar somos tratados com enorme preconceito pelos colegas da área de saúde e pela falta de informação sobre nossa profissão pelos pacientes. Por que não existe curso superior em psicanalise? Há os que acreditam que psicanalistas devem ter formação em psiquiatria ou psicologia clinica. Vou usar (em negrito para ser bem enfática e quebrar paradigmas) a resposta de Calligaris: “Nem o psiquiatra nem o psicólogo clínico se formam para serem psicoterapeutas. O essencial de sua formação acontecerá depois da faculdade ou, quem sabe, durante seus estudos. De qualquer forma se dará fora da academia.”

Esclarecendo: psicanálise não é reconhecida como ciência. Como eu poderia provar empiricamente que existe o inconsciente? Se você vier com a (boa) retórica sobre a filosofia que tem como estrutura o que não é empírico eu devolveria: mas minha tal profissão tem como o objetivo a cura. E agora? Seria algo místico, exotérico, espiritualista? Não. Quem criou foi um (ainda jovem) médico que achou outra maneira de curar as doenças da psique.

Papai Freud dizia que a sexualidade era de suma importância! Algo que poderia descrever como pan-sexualismo (todo e qualquer fenômeno psíquico encontrava algum tipo de explicação na sexualidade). Titio Lacan, muito carismático introduziu a linguagem para chegar no tal inconsciente. Tio Jung não acreditava em coincidências. Ele chamou esse fenômeno de “sincronismo”. Tá certo… não é bem o mesmo significado de um dicionário de gramática mas quase tudo na psicanálise tem seu próprio significado.

Sem contar quão é complicado trabalhar em um mundo onde qualquer pessoa que “seja entendida” sobre sexo, libido, prazer, etc acredita ser capacitada para ser uma profissional deste campo. Se não forem psicólogos com especialização em sexologia não há outro tipo de profissional que conheça mais esta área do que psicanalistas. Mas mesmo assim quem deveria ser paciente prefere se tornar cliente e gastar ainda mais.

E? E agora eu vou falar apenas por mim, Vivian Fernanda: Eu não sigo regras. Para mim não existe tempo de sessão, formalidades, valor “normal”… alias normalidade é algo que evito. Só paro uma sessão se outro paciente chegar, acompanho fora do horário de trabalho meus pacientes e cobro um preço inferior porque ainda não consegui mensurar o valor da saúde.

– O que acha Dra? me perguntam meus pacientes. Eu não acho nada. Explico o que diz a psicnálise e sou um reflexo de suas decisões. Também é válido dizer que muitos psicanalistas exigem no minimo três sessões por semana de seus pacientes. Eu tento pelo menos dois. Até saio perdendo (em $) para te-los. Desculpem colegas se não sigo as regras. Abraço meus pacientes, seguro suas mãos, uso metáforas de histórias, peço que descrevam seus momentos em músicas e divido minhas experiências… Se eles ultrapassam os limites? CLARO! Acham que estão bem e não precisam mais da psicanálise, por sua conta decidem ir apenas à uma sessão e quiçá permaneçam uma vez por semana. Mas então me lembro de cada primeira consulta e penso: “Quando se dedica aos pacientes, eles irão até você”*

Deveria me recolher à minha vã profissão filosofia. O texto esta prolixo e aos que gostaria de me dirigir provavelmente já abandonaram minhas palavras. Antes de ir me permitem um ultimo pensamento? “todas as suas dores, todos os seus sintomas, todos os seus traumas são únicos. Não deixe que te rotulem ou digam palavras repetidas mecanicamente. Eu posso estar errada em não romper a transferência, mitigar o fim da demanda, não estabelece um numero minimo de sessões e cobrar menos do que meus colegas, contudo cada paciente que me procura busca a cura e esta eu alcanço. Menos quando acreditam que já estão curados. Aí sim tenho que agir como papai Freud e os titios ensinaram: sem açucar e sem afeto, sendo apenas mais uma psicanalista.”

* Calligaris, Cartas a um jovem terapeuta
**  Yalom, Desafios da terapia