Quanto custa sua dor?

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As vezes pensamos que tudo deve ter realmente seu preço. Sempre vi isso quando eu era do “lado de lá”, a paciente. Apesar de ter tido sorte com profissionais muito humanos, a maioria eram frios como uma geladeira cara na vitrine e sem promoção. Hoje vejo isso do “lado de cá”. Falar de relacionamentos é importante, mas fica mais rentável se SEXO estiver no meio. Falar do suicídio é necessário, mas ME PERGUNTE COMO E QUANTO é mai$.

Já escutei muito durante esses dez anos de formação que nós, profissionais da saúde somos pessoas como as que atendemos. Temos contas, temos família, cansaço, horário, não devemos levar trabalho pra casa e não ler emails ou mensagens de pacientes enquanto estamos tendo momentos de lazer. Nossas contas são pagas com aquilo que os pacientes algumas vezes enxergam como obrigação. Vejo que talvez isso seja a construção do que chamam de “Deuses”.
Claro que existem médicos (e outros) que de fato se acham “Deus”. Mas existem os que precisam da ajuda dele para dar o melhor de si e em algumas ocasiões esquecer aquela fatura atrasada mas atender o paciente mesmo sabendo que seria dali que viria o pagamento dos que nos cobram e estão pouco se lixando pra sua profissão.

É complicado. Raros são os que abrem um catálogo ou google para buscar um psicanalista, psicologo ou até médico. No começo da profissão então… e se tentamos “vender” nosso serviço, aqueles que precisam não nos perguntam: só posso lhe pagar 10 reais por atendimento/consulta, mas preciso muito. Particularmente, eu não negaria. Me dói muito mais não ajudar, as vezes só escutar. Apesar de saber que sou boa no que faço e meu trabalho vale bem mais do que 100 reais/hora. Me lembro da minha avó em meados de 1996. Ela já tinha passado boa parte da vida cozinhando pra fora já que meu avô gastava tudo com bebida e jogo. Na época, já aposentada e sem necessidade de ainda cozinhar para os outros ela ainda sim aceitava um ou outro pedido. Quase sempre vindo dos amigos. Mas puxa, como era caro! Perguntei pra ela porque cobrava tão caro, principalmente se era para amigos de varias décadas. Ela respondeu:
– Nanda, eu não faço porque preciso pagar uma conta, mas por amizade mesmo. Só que cozinho há 60 anos. cozinho muito bem. Eles (os amigos) sabem, conhecem e por isso me procuram. Ninguém faria este pratos mais gostoso do que eu. Então cobro pelo meu trabalho. Se é o melhor, é o mais caro.
É vó… será que a senhora aí em cima não pode me dar um forcinha para que eu haja assim?

Eu ja fui internada na ala psiquiátrica de hospital publico, já tive plano de saúde, já paguei (e pago) por atendimento particular (por que ela é a melhor. e minha saúde mental não tem preço). Já passei três meses internada tomando remédios e mais remédios. Tive (tenho) sequelas. Passei pelo choque de pedir (na justiça vale dizer) meus prontuários e ficar chocada ao ler o que psicólogos e terapeutas escreveram de mim enquanto eu pensava que eles “estavam do meu lado e me entendiam”. Já fui alem da transferência profissional e tive que pedir (exigir) alta para não prejudicar a carreira dele (a transferência não foi por minha parte, tá?) Rótulos? QUEM NÃO? acho que tenho mais CID’s do que qualquer outro paciente. já tive todas as doenças classificadas no DSM.
Ah não posso esconder que já tentei suicídio 3 vezes e na ultima passei 5 dias na UTI. E também fui dos 65 aos 37 quilos. Quase um 4º suicídio, tanto que precisei ser internada e só recebi alta do hospital ao chegar nos 43 quilos no alto do meu 1,70 de altura.

Hoje depois de anos de estudo, psicanalista, espirita doutrinada pela FEB, voluntária daquele mesmo primeiro hospital publico mas dessa vez trabalhando na oncologia e doentes terminais posso dizer para qualquer paciente: EU TE ENTENDO! eu sei que não é show, birra, querer aparecer. SEI QUE DÓI! mas me dê uma chance de te ajudar porque essa chance eu só tive depois de ver a morte bem de perto. e lá, pra onde você pensa que vai e acabaram seus problemas, talvez seja o inicio do maior deles. (posso falar como médiun, como psicanalista ou como uma pessoa tão frágil como você).

Vou contar mais uma coisa antes de ir arrumar minha casa (não tenho grana para pagar uma diarista. ainda.): o que eu recebo não paga 1/5 das parcelas dos livros que tive que comprar e leio para tentar curar meus pacientes (e quem sabe você, meu caro que não me ofereceu 10 reais ou acha que 100 reais por consulta é muito caro para melhorar e se ver livre de tanta dor). Porém eu não vou desistir, e sabe por que? Até hoje eu pago 400,00 reais por 45 minutos de consulta com uma profissional que me dá o que dinheiro no mundo ou mastercard pode comprar: paz de espirito. Vou continuar pagando infinitas parcelas de livros, despesas com site e clinica, mas não deixarei de pagar um preço justo por um serviço muito bem feito. um serviço para mim mesma. e Assim espero encontrar outras pessoas que não tenham que passar por tudo isso para valorizar esta que só dorme bem, quando meu paciente dorme também.
Dra Vivian Fernanda