Tão lenta como só a dor sabe ser.

maos-dadas

A falta de vontade de viver acontece com todos pelo menos uma vez na vida. Mesmo que seja rápido ou por algo insignificante. A raiz do problema não é a ideação suicida mas sim o preconceito explicito ou a vergonha velada de falar sobre o assunto. Algo feio, sujo e pecaminoso. Contudo é sério, pelo menos eu considero muito sério e delicado. Minhas pacientes merecem ser ouvidas e perdoadas em sua fé ou sua família. A sociedade condena o assunto por isso juntei toda coragem e respeito para fazer esse texto: vocês querem realmente saber o que se passa dentro da cabeça de uma pessoa que quer morrer? Então vamos lá…eu descrevo toda dor que ela sofre.

Primeiro eu não vejo como “me matar” ou “querer morrer” mas simplesmente deixar de viver. Não existir mais. Descansar talvez… Sentir uma vontade dilacerante de dormir e não acordar nunca mais. As vezes sentir dor no corpo todo e um imenso vazio que se completa pela falta de atenção (entenda-se carinho) das pessoas que fazem parte da vida dela.

Uma pessoa que anseia não viver mais, ela esta no limite de todas as suas forças físicas e emocionais. Acho que isso não pode ser algo profano porque Deus não nos deixaria sentir algo para a qual não existisse uma cura. E deposite sua fé em quem pode te curar neste mundo que vivemos, pois Ele também não depositaria tanto empenho, estudo, amor ao próximo, preocupação em outras pessoas que se dispõem a estudar e se dedicar a tal profissão.

Calma que ainda não terminei: são vários sentimentos que chamamos na psicanálise por “pulsão de morte” e podem ser definidos por “depressão anaclítica” (depressão essencial) que corresponde aos casos mais graves, ao abandono de todos os interesses, objetivos e ideias. Falando em depressão, há ainda: depressão por perdas, depressão por culpas, depressão por fracasso além de patogênicas ou orgânicas.

Ninguém (ups, desculpe Sr Ninguém), pouca gente no mundo é capaz de entender que dor é essa e assim pacientes chegam até mim se apegando desesperadamente à um fio qualquer. Na profunda solidão se perguntam: O que sou eu? Quem sou eu? Pra que continuar vivendo? As pessoas não entendem, Dra! Dói demais. E mesmo que eu tente ser mais forte, eu não consigo. Então eu acolho e explico: é muito difícil ser mais forte que o nosso genioso cérebro.

Da mesma forma que o apetite desaparece, ele pode simplesmente dominar tudo e a pessoa come compulsivamente. O corpo é mais um prisioneiro de si mesmo. E não só o apetite: sono, dores, necessidades… é como se o cérebro dissesse “já que você é teimosa e tá querendo resistir, vamos ver quem tem mais força!” Assim chega ao ponto critico: um auto-extermínio inconsciente.

Por todos os profissionais de saúde mental, que são eticamente proibidos de qualquer exposição quanto a religião, faço esse texto sabendo do tabu em que vivemos. As pessoas estão tristes, estão condenadas a viver sob rótulos de doenças psiquiátricas e eternamente dependentes de remédios. Sou eternamente estudiosa e dedicada a cada paciente, cada uma tem uma história e querem ser ouvidos como pessoas e não doentes! Sou a favor da fé seja ela qual for e principalmente: sou alguém que como aqueles que chegam até mim já sofreram por esconder essa dor. Ah, acho que consigo cura-la com um remédio chamado AMOR.

Vivian Fernanda
Psicanalista, que conhece as dores de viver e tem fé (que a fé não costuma faiá)