Um remédio chamado música

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Segunda-feira eu decidi fazer algo que já estava há certo tempo estudando como aplicar em cada paciente. Música. A música usa palavras para expressar sentimentos. E sentimentos as vezes estão tão recalcados no inconsciente que é difícil extirpa-los.

Eu sempre peço uma música ao final da primeira consulta. Eu as envio por rede social e os pacientes se identificam, conversam sobre isso na sessão seguida ou mesmo me mandam uma mensagem no celular para tecer comentários. Quase sempre bons. Porém o intuito não é esse: ser bom.

Quando se tem uma dor de dente forte, as vezes o dentista nos faz passar por uma dor maior para arranca-lo. Ou quando há um tumor o médico faz uma cirurgia (que dói) para retira-lo. Pois bem: eu tenho que arrancar, retirar, trazer pra fora esse sintoma, essa queixa, esse sentimento que provoca dor. E as vezes é tão doloroso que até eu sinto.

E foi tão intenso que só hoje, dois dias depois, eu consigo falar sobre esse trabalho. Não sem antes perguntar às pacientes se elas estavam bem. recebi uma resposta muito interessante de uma delas ao confirmar sua sessão para amanha:
Paciente – Até quinta. Não quero mais música não. rs. Beijos.
Eu – Doeu?
Paciente – Sim!
Eu – Foi difícil. Para todas. Mas eu precisava libertar vocês de alguns sentimentos que escondem esses machucados.
Paciente – Depois vou querer saber disso. Quais sentimentos preciso libertar.
Eu – De culpa. Medo.
Paciente – Entendi. Tenho eles mesmo.
Eu – E você enfrentou eles!
Paciente – Me deu raiva, rs
Eu – Que bom! Você se levantou. Se ergueu. Viu o que estava acontecendo. Vou trabalhar seu material com você sem tanta emoção, com mais razão.
Paciente – Eu sou uma explosão de emoção. Isso Preciso melhorar.
Eu – Vamos trabalhar isso.
Paciente – Ta bom. E trabalhar também outras coisas que você sabe.

Ou seja: foi algo tão doloroso que ela agiu como uma criança depois da primeira injeção: não quero mais tomar isso. Mas na medicina aprendemos a não pensar na dor da injeção na criança, mas que aquilo está curando ela. E dói em nós também. Me sinto uma luz que estava sob uma cortina escura ao ouvir dos pacientes: -“Eu não quero acreditar mas é assim. Eu reconheço.”

Ao me sentar e pedir que o paciente se aproxime do meu notebook, peço que eu seja apenas razão. Primeiro escutamos juntos a musica com a letra. Depois volto e vou parando a cada frase ou estrofe que identifique a realidade do paciente. Pergunto: – entendeu? quem é essa pessoa? Quando isso começou? É assim que deseja ser? A resposta quase sempre vem no silencio em forma de lagrima ou um olhar vazio, perdido… como vendo um filme na sua mente.

São as consequências da vida. Somos o reflexo de nossa infância dizem os livros de psicanálise. Me perdoe se não cito um autor especificamente porém isso é parte de todo aprendizado de um psicanalista. Não é fácil resgatar o que o “porão” do inconsciente trancou. A cada paciente uma folha em branco se apresenta. Preciso que se reconheçam, que aceitem, que trabalhem comigo, porque se cada um remar para uma direção, nosso barco não sairá do lugar. Neste barco entramos juntos ao começar o tratamento.

O uso da música demanda um certo tempo de contato. A transferência, a demanda do amor, a intimidade. O paciente entender que não é por estar em um dia bom que não precisará vir com a mesma frequência. Abandonar ou faltar. Deixar de pagar. Eu particularmente sofro por tudo isso. Cobrar a presença, cobrar o pagamento, cobrar a aceitação e confiar que sua alta virá. Não pretendo ter os mesmos pacientes por anos. Isso significaria que sou péssima no que faço. Como passar anos com um paciente e não conseguir cura-lo?

Enfim pacientes e colegas, acho que acreditando em Freud quando diz: a cura demanda tempo, não terei o problema de continuar com músicas. São tantas… Meu problema talvez será achar “a certa” entre essas tantas. Destarte a psicanálise mais uma vez prova que precisamos ser muito mais pacientes do que nossos pacientes.