Uma mulher, uma revista e uma psicanalista

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“…Tem que ir pra terapia, não para a maca do cirurgião. Sabe por quê? O vazio é interno.. Não está na boca, não está no olho, não está na papada. O problema está na cabeça.” Maria Paula com frequência pega a ponte aérea para ver o psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg. “Isso é o que me salva da plástica e do julgamento das pessoas, que são extremamente cruéis, mesquinhas, tacanhas. Para eu viver minha vida, preciso ter uma base emocional forte”…
Maria Paula, 43 anos, atriz e comediante em entrevista à Revista Gol, maio de 2014

Muitas pessoas não entendem quão é diferente o trabalho do psicólogo e do psicanalista. É difícil explicar, e muito fácil e rápido depois da primeira sessão. Existem questões e pontos de vista paradoxos entre os dois profissionais. Falar de maneira clara é imprudente pois pode parecer que estamos (os psicanalistas) denegrindo ou subestimando a profissão do psicólogo. E isso é anti-ético perante todos os profissionais da saúde. Principalmente saúde mental. Deixo então que os psicólogos expliquem a sua maneira como trabalham, e me conterei em falar sobre o fantástico mundo da psicanálise.

Para começar vamos quebrar os mitos e esclarecer o que não existe na psicanálise. Uma delas é a “linha”. É normal perguntar ao psicólogo qual linha ele segue. Com psicanalistas não existe essa diferenciação. No máximo podemos dizer: clínica ou integral. Que aliás, no meu ponto de vista são semelhantes. A psicanálise foi criada por Freud, atualizada por Lacan, desmistificada por Klein e espiritualizada por Jung. Fora tantos outros como Bion, Winnicott, Ferenczi, Adler, Steckel, Dejours, Green, Yalom e Calligaris. Então não existe “uma linha” entre os psicanalistas. Todos os autores e estudiosos contribuem e renovam nosso eterno aprendizado.

Gostaria de ser mais prática e menos prolixa: o analista é uma folha em branco. Freud dizia o contrario: psicanalistas tem que saber tudo e sobre tudo. Mas não é bem assim… Aplicamos nossos estudos em cada caso e todo paciente é diferente, então não existe uma regra. Prefiro falar desta forma para meus pacientes: eu sou você visto por você mesmo. Comumente usam a expressão: “quem vê de fora”. Destarte sou você se vendo de fora!

Também posso falar: vou te mostrar como você se julgaria usando seus próprios parâmetros. Em outras palavras: inexoravelmente julgamos os outros. E qual seria a maneira mais justar de avaliar um fato ou alguém? Bom, coloque-se no lugar da pessoa e imagine como você se sentiria com o julgamento que você fez para ela. É exatamente assim que trabalho: mostro ao paciente de que maneira ele julgaria algo ou alguém, só que no caso uso ele mesmo e acreditem, a maioria se surpreende. Aproveito para mostrar como usa sua balança com aqueles que rodeiam seu mundo. Se esta certo ou errado não cabe a mim dizer isso, me contenho a apenas analisar junto (e sempre junto, nunca sozinha) tudo que diz.

Analisar é algo racional. Ironicamente precisamos da transferência para trabalhar com sucesso. Digo ironicamente porque a transferência é um sentimento como a confiança ou “demanda do amor” segundo Lacan. Ao conseguir que o paciente se entregue, começa um momento muito importante do tratamento: a frieza para buscar e esclarecer as causas de suas dores, suas queixas, seus traumas. Partindo do tripé proposto por Freud tenho: sexo, infância e sonho. (nem sempre necessariamente nessa ordem). Muitos me olham assustados quando em menos das primeiras duas horas de sua primeira consulta revelam intimidades que não imaginavam ter coragem de falar. Ou acreditavam que seria adiante. Não é. As coisas mais importantes são trazidas como se eu arrancasse de um lugar guardado e escondido. Aliás pode chamar esse lugar de inconsciente.

Ao assumir o paciente (ah sim: psicanalistas podem rejeitar um paciente com a mesma naturalidade que os acolhe. É o limite do profissional. Raro acontecer pois para ser psicanalista a premissa é se despir de qualquer tipo de preconceito, porém eu não gostaria de tratar um pedófilo. Esse é único exemplo que me vem a cabeça.) voltando, ao assumir um paciente entregamos parte de nós junto. Isso inclui o celular, email e cor favorita.

Outras singularidades como: atender em domicilio, atender em lugares públicos, não ter duração (tempo) da sessão, ocasionalmente exigir que o paciente tenha no minimo duas sessões por semana, não aceitar convênios (planos de saúde), dar ou não alta quando perceber a cura, cobrar pela sessão que o paciente faltou, desistir quando o paciente acha que já está bem e diminui sua frequência sem permissão, NÃO deixar de atender um paciente que precise independente de dinheiro, horário ou problemas de saúde… Acho que essas são algumas questões gerais e comum aos psicanalistas.

Não é a toa que há poucos e bons psicanalistas no Brasil. É razoavelmente nova e vista como uma das profissões do futuro. Com o mundo adoecendo e exigindo cada dia mais das pessoas, um profissional que cuida do emocional, afetivo, psicológico e físico sem medicação e com a missão de curar é valorizado e procurado como foi relatado pela entrevista que começou esse texto. E você? Já tomou a coragem necessária para começar ou prefere gastar com subterfúgios? É uma decisão tão intima que nem mesmo Freud explicaria.

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Vivian Fernanda,
psicanalista e leitora de qualquer revista que apareça na minha frente.